sábado, 18 de abril de 2015

Conto:O Quadro



Depois de um bom  tempo sem escrever vou postar esse conto que escrevi já tem um ano,  e estava guardado até agora...


O Quadro

Apenas uma nota, apenas um toque de piano, e o som ecoaram pela sala inteira.
Que saudade
Essa era a definição para Ligia, que estava ali de volta.
A velha casa de campo da família, o lugar que mais amou e odiou por uma vida inteira, e que agora passaria ter novos donos, novos sonhos e novas lembranças.
Ligia agora era uma mulher madura, tinha conquistado tudo o que queria, tinha uma carreira estável e bem sucedida como arquiteta, morava num belo apartamento num bairro nobre, tinha amigos, frequentava bons lugares, convites nunca faltaram, suas conquistas amorosas não deixam nada a desejar para as estrelas da mídia.
Mas no fundo, tinha algo que a incomodava, e que ninguém nunca conseguiu entender quem sabe agora passando aquela casa adiante, ela não conseguiria também deixar outra Ligia para trás.

As pessoas não voltam.
A sua mãe não voltaria mais, sua infância não voltaria e nem mesmo os melhores momentos.
Mas tem um dia em especial, que Ligia nunca mais esqueceu.
Só que tinha que se esquecer de toda aquela bobagem, precisava olhar a casa, já que foi intimada por um e-mail da irmã que a comunicava que a casa do campo seria vendida, que sua parte seria depositada o mais rápido, e que se quisesse ver a casa e até buscar algum objeto para guardar, que o melhor dia seria na sexta-feira, pois no sábado o pai delas junto com nova esposa, passaria por lá  para fazer o mesmo.
Então naquela manhã assim que ligou para o escritório seguiu para o interior.
Era hora de matar os fantasmas.
Ligia começou a andar pela casa, que um dia foi o sonho da sua mãe, que assim que os filhos crescessem, ela e o marido se mudariam para lá, pois era calmo, bonito, tinha tudo o que ela queria e precisava.
Todo final de semana era uma festa, a festa da sua mãe, a festa da Rose.
Não tinha um final de semana que passavam só eles, a família, pois sempre tinha amigos, parentes, e assim foram muitos finais de semana, feriados, férias.
Mas Ligia odiava, parecia que ninguém nunca tinha um tempo só pra ela, talvez seja por esse motivo que o seu pai em um dia de fúria a chamou de egoísta.


E  continuou seguindo cômodo por cômodo até chegar no quarto dos pais, e ficou surpresa pelo que viu ali, que nada mais era o quadro.
O quadro da sua mãe ficou naquele quarto, todos aqueles anos e  foi o que ela mais pensou em buscar que era, o quadro.
O quadro que sua mãe pintou, para mostrar para todo mundo  que suas aulas de pintura não foram em vão, talvez ela quisesse fazer um auto-retrato, mas para a ironia dela todo acharam que eram apenas borrões.
As lembranças daquele dia que a dona Rose apresentou o quadro tão esperado por todos, talvez tenha sido, o ultimo dia feliz em família, antes de a doença ter chegado. Então pegou o quadro com cuidado, e levou para o carro.
Ligia já estava abrindo a porta do carro, quando se deparou com uma menina, que estava no balanço, o mesmo que ela brincou por muitas vezes. A primeira vontade era dar uma bronca. Como aquela menina entrou ali, mas logo passou esse pensamento.
— Oi
Disse a menina, que devia ter uns seis ou sete anos de idade, era sorridente, tinha cabelos castanhos um pouco ondulados, usava um vestidinho cor de rosa.
— Oi— respondeu Ligia — Como entrou aqui mocinha? Seus pais não vão gostar nada, então é melhor ir.
—O que tem ai em suas mãos? Porque está guardando no carro?
—É um quadro, não está vendo?
—Eu posso ver? —Perguntou a menina, com um olhar curioso, deixando a balança, e indo mais perto de Ligia  para pode  ver a imagem.
Ligia meio a contra gostou, mostrou o quadro, enquanto a menina olhava com curiosidade e meiguice, e então disse apontando para o quadro.
—AH! É uma família! Não é?  É sim uma família olha um pai, uma mãe e três crianças, mas quem é você aqui?
— Eu já mostrei o quadro, agora chega de perguntas. Eu preciso ir embora agora, e então me mostre a sua casa que eu a levarei.
—Espera, deixa-me ficar, posso conhecer a sua casa?
Mas a menina não esperou por resposta, logo saiu correndo para dentro da casa.
Ligia deixou o quadro em pé ali mesmo no chão encostado no carro e correu para pegar a menina atrevida.
—Menina, eu não tenho tempo para correr atrás de você, agora vamos embora, vamos a sua mãe deve estar preocupada!
Ligia falava alto pela casa, procurando a menina com o olhar, quando ouviu barulho vindo da cozinha.
A menina agora ocupava uma das cadeiras e comia uma maça.
—Onde pegou essa maça?
—Oras, lá no fundo, mas não peguei do chão não, quer uma mordida?
Ligia olhou da janela da cozinha e viu uma grande macieira que foi seus pais que plantaram, mas que nunca tinha crescido e agora era uma frondosa árvore de maças.
—Vão vender a casa não é?
—Como sabe disso?
—Eu sei de tudo, bom quase tudo.
A menina  tinha um olhar  forte e ao mesmo tempo delicado parecia e parecia ter entrado na cabeça da Ligia.
 “Se você pudesse voltar no tempo, o que mudaria? Vamos Ligia não tenha medo, sou sua amiga e eu posso levar você agora, não tenha medo, pegue na minha mão, vem Ligia”

A voz da garotinha estava dentro da cabeça da Ligia, que não teve forças a não ser tocar na mãozinha que era oferecida, e quando suas mãos se tocaram, tudo começou a girar. Ligia olhou para a porta de entrada, e viu seus pais entrando, e carregando um quadro.

“Eu sei que de tantos dias felizes, você sempre volta nesse, quando sua mãe  mostrou o quadro, ela queria ver uma boa reação de todos vocês, mas você não sorriu, e foi a primeira dizer que era feio, e que você não era aquela figura do quadro ao lado do seu pai.Ainda se sente culpada, e acha que sua mãe adoeceu por causa desse dia, não é Ligia?”
As lagrimas que Ligia deixou cair eram as resposta.

E foi se aproximando, olhando aquela cena, agora dessa vez como uma simples telespectadora.
Seus pais entraram chamando todos na sala, porque a mãe queria mostrar algo, Ligia chegou por ultimo, estava de mau humor, tinha brigado com sua melhor amiga porque agora namorava o menino que Ligia sempre gostou. Aquele momento da sua vida parecia que ninguém a entendia, ninguém era seu amigo, até mesmo a sua mãe.
—O que acharam? Vamos digam alguma coisa, sua mãe quer a opinião de vocês— O pai olhava para os filhos, um pouco aflito, com medo da sinceridade deles. Cada um disse uma coisa, ou perguntou o que era isso ou aquilo?
Mas o olhar da Rose fixou em Ligia
—E você querida, o que achou?

Ligia e a pequena menina olhavam a cena.

Eu respondi que estava horrível, que ela não tinha nada que está pintando, ou pintar a família, que ela não passava de uma idiota, foi isso que eu respondi, eu me tranquei no quarto, fiquei de castigo, durante a noite eu a ouvi chorando, eu tinha quinze anos, e não voltei mais aqui, e dentro de um ano ela faleceu.
A menina pegou a sua mão e sorriu
Não se culpe, ela já estava doente, mas não queria contar, por isso que o seu presente não mudará em nada, mas se quiser pode fazer algo diferente, como agora, é sua única chance Ligia.

Então Ligia começou a falar as palavras que ficaram presas nos últimos anos, e a Ligia de quinze anos começou a repetir tudo.
— Que lindo  minha mãe, a sua arte é incrível, a senhora poderia pintar mais, que tal um quadro para cada filho ou pintar o pai? O que acha mãe eu gostei muito!
Aquela frase realmente surgiu um grande efeito, pois Rose ficou emocionada e sorriu. E seu irmão disse num tom provocativo.
— Tem certeza Ligia? Você parece um borrão ali ó, veja...
Ligia olhou para sua mãe e disse
—Não importa se eu me pareço com um borrão, mas sou o borrão da minha mãe.
—Oh querida! — disse Rose que a abraçou.
Ligia mais nova a abraçou forte, e enquanto a Ligia mais velha sentia aquele abraço quente, com cheiro e carinho de mãe.
E tudo de repente mudou e passou rapidamente, como uma fita cassete sendo rebobinando diante dos olhos.
Nada mudaria o ciclo, ela não conseguiria evitar a perda, nem a saudade, nem mesmo a distância, pois todos cresceram, casaram, viajaram.
Mas Ligia se sentiu mais leve mais livre...
E acordou! E viu que estava deitada no sofá da casa de campo, e que continuava do jeito que estava quando entrou, e lembrou-se da menina, e saiu procurando pela casa, mas não tinha ninguém, estava só.
Antes de fechar a casa voltou para ver a árvore que ainda estava lá, carregada de maças.
Ligia sorriu, e agora estava na hora de partir.
Chegando no carro, arrumou melhor o quadro no banco de trás, com o maior cuidado, quando o seu celular tocou. Era o seu noivo, ela tinha  aceitado o pedido só tinha duas semanas.
E conversaram amigavelmente, Pedro estaria a sua espera em casa.
Ligia sentia uma felicidade imensa, que parecia não caber mais dentro dela.
Entrou no carro, e se preparava para partir, lembrou-se da menina, que era tão pequena e tão esperta, talvez fosse um anjo. Quem sabe não é.
Assim que passou pelo portão de madeira, voltou para trancá-lo, quando viu um casal se aproximando e que pararam na casa ao lado, pelo jeito pareciam estar chegando do mercado.
O casal a cumprimentou de longe, entre acenos e sorrisos, pois quem tinha amizade com os vizinhos e sabia o nome de todos era o seu pai.
Agora ela tinha que seguir a vida, levando uma recordação da sua mãe, a casa logo estaria em outras mãos, pois foi assim que a maioria quis, e agora ela voltaria para a sua vida, o seu futuro casamento, ao seu futuro.
Quando estava quase dobrando a rua, viu duas crianças na calçada correndo na direção do casal, eram pequenas e sorridentes, e uma delas chamou a sua atenção, uma das meninas era idêntica a do seu sonho, e a menina também a olhou e sorriu, e parando  e acenando  para Ligia, que quando olhou para elas pode ver a mãe chamando as meninas e foi nítido, a mulher chamou aquela menina que parecia a mesma do seu sonho, a que entrou na casa brincou no balanço e comeu uma maça, a mulher gritou um nome, esse nome era:

Rose!
E a menina correu para a mãe e entrou na casa.
Lígia mesmo em choque com aquela cena, continuou dirigindo, mesmo querendo voltar. Mas seguiu em frente. Seguiu a vida que á chamava, porque ela sabia que o tempo agora era um amigo precioso, que não voltava para novos quadros serem pintados agora é o futuro que vai ser colorido.



Fim
c Roberta Del Carlo c 
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